Alteração genética diminui incidência de pragas na lavoura.

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A maioria das pessoas está familiarizada com o conceito de plantações geneticamente desenvolvidas para ajudá-las a combater pragas e doenças. Uma companhia de pesquisa com base no Reino Unido, Oxitec, virou o jogo ao desenvolver uma versão geneticamente planejada da traça-das-crucíferas, uma praga persistente que se alimenta das plantações de brassicas crucíferas, como repolho e couve-flor.

 

A traça-das-crucíferas, que alguns pesquisadores acreditam ter se originado na Europa, podem agora ser encontradas por todo o mundo, incluindo as Américas, Europa, Sudeste da Ásia, Austrália e Nova Zelândia. Quando se trata de plantas crucíferas, o inseto é um cliente sem discernimento. Plantações de crucíferas incluem muitos vegetais que são parte da dieta diária de uma pessoa, como a couve de Bruxelas, couve e rabanete. E a traça-das-crucíferas custa aos fazendeiros por volta de U$4 bilhões – U$5 bilhões a cada ano, de acordo com estimativas atuais.

É durante o estágio larval que as traças-das-crucíferas afetam a destruição da plantação, e ainda que as larvas sejam pequenas no tamanho, apresentam força em número, com alguns fazendeiros vendo todo o campo dizimado em apenas um fim de semana. Um surto de larvas de traça-das-crucíferas pode ser particularmente devastador para mudas, geralmente levando ao rompimento da formação normal de cabeças no brócolis, na couve-flor e no repolho. Algumas larvas se escondem na flor das plantas crucíferas, fazendo uma colheita afetada ser rejeitada por virtualmente todo vendedor de produção.

Tentativas anteriores de controlar a população da traça-das-crucíferas envolveu uma variedade de inseticidas pulverizados amplamente em plantações de comida. Outros métodos usados em outras pragas, apesar de não serem traças-das-crucíferas, incluem Técnica de Esterilização de Inseto (SIT). Isso envolve esterilizar os insetos machos usando radiação e soltando-os para que cruzem com os insetos fêmeas. Depois de solturas bem sucedidas, o número de crias produzidas em cada ciclo de vida diminui e a população da praga cai junto com a ameaça que representa à plantação.

Usada por mais de 50 anos em vários locais no mundo, SIT funcionou com alguns insetos, como a varejeira do novo mundo em gado, mas também tem alguns lados negativos. “Existem várias desvantagens nessa técnica. Uma sendo o fato que a radiação danifica o inseto e reduz sua efetividade na natureza,” o Dr. Neil Morrison recentemente disse à AgFunderNews.

Morrison, que lidera o projeto da traça-das-crucíferas com a Oxitec, acredita que o método livre de radiação da companhia oferece um método mais seguro e potencialmente mais efetivo de controlar essas pragas.

“Nosso fundador, instalado na Universidade de Oxford, estava trabalhando com genética de insetos o tempo todo. Ele identificou a ferramenta de pesquisa que pode ter utilidade em algo como a SIT que poderia fornecer soluções para algumas das suas desvantagens,” diz Morrison. “O principal disso foi realmente que a genética poderia fornecer uma tecnologia auto limitadora que evita a necessidade de radiação.”.

O que faz da radiação um risco? Além de torná-los estéreis, atingir os insetos com radiação introduz quebras em seu DNA assim reduz sua viabilidade. Como consequência, eles são menos efetivos em cruzar fazendo com que muitas traças tratadas morram antes que possam cruzar com uma fêmea e prevenir que tenham crias viáveis.

O método inovador da Oxitec usa engenharia genética para criar traças machos ‘estéreis’. Quando soltas, os machos estéreis cruzam com as fêmeas e evitam que uma nova geração de traça-das-crucíferas nasça, resultando em uma redução da população do inseto com o tempo. “Com nossa variante genética, nossos machos carregam um gene auto limitante. Se você soltar um número suficiente desses machos por um período de tempo contínuo, você reduzirá o número de fêmeas na próxima geração,” diz Morrison.

Enquanto isso pode soar um pouco dramático, o impacto é na verdade bem local e poderia nunca resultar na intoxicação da espécie da traça, de acordo com Morrison. Isso faz com que seja muito prático para o uso agrícola. “Seria praticamente impossível eliminar todas as traças,” diz. “Nossa abordagem só possui efeito onde soltamos as traças. São um controle local para os campos do fazendeiro.”

Olhando para o futuro, Morrison e o Dr. Chris Creese, gerente de comunicações da Oxitec, visualizam as traças GM da Oxitec tendo um papel importante em um sistema de controle de pragas integrado. “Em muitos setores agrícolas, fornecedores de bio controle são contratados para fornecer predadores e parasitoides para controle de pragas químico,” diz Morrison. “Nossa abordagem não é tão diferente. O segredo é produzir os insetos de forma barata.”

”Flexibilidade é um componente importante,” diz Creese. “Você precisará de um programa com uma série de solturas para ter a população sob controle.” Depois que as traças da Oxitec cumpriram sua tarefa, fazendeiros serão capazes de atender seus campos usando a mesma bateria de ferramentas disponíveis para eles hoje, incluindo pesticidas.

Como Creese nota, as traças podem ser usadas concomitantemente com outras formas de controle de pragas desde que as ferramentas não afetem as traças GM depois de serem soltas. “Por não serem resistentes a inseticidas, as traças sobreviveriam, e as traças prestativas seriam eliminadas,” diz Creese. “Mas você pode facilmente atrasar a soltura das traças e pulverizar pesticida se necessário e integrar com outras ferramentas. Isso já está sendo feito com sucesso com nossos pernilongos. Há muitas maneiras diferentes que você pode aplicar isso para que fazendeiros possam ter muitas escolhas para gerenciar bem seus campos.”

“Você pode conseguir diminuir a população e adotar uma abordagem de ‘sentar e esperar’”, explica Creese. “Usando armadilhas, você poder monitorar a população e determinar se você precisa fazer outra soltura.” As armadilhas às quais Creese se refere terão um papel importante em testes contínuos envolvendo as traças.

“Depois de soltarmos nossos machos no campo, colocamos armadilhas como um fazendeiro faria para monitorar as plantações e essas armadilhas pegam traças aleatoriamente,” diz Morrison. “Todo certo número de dias retornamos com as armadilhas para o laboratório e verificamos as traças.” Com sucesso contínuo pendente, Morrison visualiza monitorar as traças através de armadilhas automatizadas. As armadilhas poderiam coletar um certo número de traças, examiná-las para detectar quais têm o marcador vermelho, inserir em seu DNA durante o processo e transmitir os dados remotamente para um laboratório. Essa informação indica se outra soltura é necessária e, se for, quantas traças deveria incluir.

O projeto traça-das-crucíferas da Oxitec se graduou de testes de laboratório altamente controlados para um teste em gaiolas de campo no norte de Nova York esse verão. A Oxitec também continuou a fazer testes nos EUA e no Reino Unido nos quais traças eram soltas em estufas. A cada passo do processo, a Oxitec deve obter uma série de permissões e aprovações para levar seus testes do laboratório para o campo. “Um dos objetivos do trabalho em gaiola de campo esse verão é obter mais dados em testes como taxa reprodutiva e competição de reprodução,” diz Creese. “Essas características serão alimentadas ao modelo de população para ajudar a detalhar o número ideal de traças no início.”

Como no experimento científico, há riscos. Mas os riscos envolvidos com traças-das-crucíferas modificadas geneticamente são baixos, de acordo com Morrison e Creese. Uma das primeiras perguntas feitas é se as traças poderiam causar algum dano potencial. “Elas são não toxicas,” diz Morrison. “E assim dessa perspectiva parece um baixo risco. Com essas traças, por exemplo, nos inscrevemos para aprovação de testes nos EUA e avaliaram todos os riscos possíveis e Não Encontraram Impacto Significante.”

Que impacto essas traças-das-crucíferas podem ter em outros insetos? Provavelmente não muito. “O fato que elas confiam em cruzar uma traça macho com uma fêmea significa que é muito específico à pragas alvo,” diz Morrison. “Diferente de outros métodos, como inseticidas de espectro amplo, você realmente está mirando aquela única praga problemática. É um pouco como usar um bisturi ao invés de uma marreta.” A abordagem mais exata que as traças da Oxitec oferecem é particularmente importante quando se trata de preservar insetos beneficentes em torno dos centros agrícolas. “Isso quer dizer que outros insetos no ambiente local que podem ser úteis ao fazendeiro como polinizadores não são danificados.”

>Traça-das-crucíferas não são a primeira incursão da Oxitec no controle de pragas geneticamente desenvolvidos. A companhia encontrou sucesso usando uma estratégia similar para controlar mosquitos da dengue no Brasil. A companhia tem uma aplicação com a aprovação da FDA pendente para conduzir testes com mosquitos na Flórida. Usando a mesma tecnologia de gene auto limitante e marcador de cor, a Oxitec modificou o DNA do mosquito macho para que suas crias carreguem um gene que faça com que eles morram antes de atingir a maturidade.

“Mais de 100 milhões de mosquitos da Oxitec foram soltos mundialmente em testes aprovados sem efeitos desfavoráveis em pessoas ou no ambiente,” diz Cresse. “Em todos os testes, houve mais que 90 por cento de redução dos mosquitos da dengue.”

O sucesso contínuo com as traças-das-crucíferas indica que essa tecnologia poderia levar a muitas outras aplicações envolvendo controle de pragas. “A tecnologia pode desenvolver muito. Um lado de nossa pesquisa é definitivamente essa genética sofisticada e o outro é realmente inovar a produção em massa de insetos visando implementação econômica de nossa abordagem,” diz Morrison. O trabalho da Oxitec com os mosquitos da dengue é seu exemplo mais avançado exemplo de como pragas  geneticamente modificadas podem ser criadas em massa. “Tivemos testes bem sucedidos na América Central e do Sul e no Caribe. Eles têm aumentado gradualmente em escala assim como sucedidamente suprimindo a população desses mosquitos.”

Para reduzir o custo de produção dos mosquitos GM, a Oxitec desenvolveu uma maneira de distinguir entre os machos e as fêmeas no estágio juvenil. “Também temos produzido mosquitos de forma muito barata,” diz Morrison. “Conseguimos separar machos e fêmeas muito eficientemente por tamanho assim quando é hora de soltá-los no campo, soltamos os machos, que não picam.”

Assim como com tudo que envolve engenharia genética, alguns membros do público expressaram sua preocupação com as consequências de alterar o DNA de uma espécie. “É ótimo que as pessoas cuidem do meio ambiente e perguntem sobre os impactos ambientais,” diz Creese. Ambos Morrison e Creese destacam o ponto que as traças são não toxicas, apresentando nenhum perigo a predadores que as comem na natureza.

Ainda que alguns possam interpretar as traças modificadas geneticamente da Oxitec como um afastamento da natureza, Creese vê um ponto de vista inteiramente diferente. “O fato é que essa é uma espécie invasiva na maioria dos lugares no mundo. As traças GM ajudariam a restaurar o ecossistema local ao mais próximo do que era antes,” diz Creese. “Todos precisamos trabalhar juntos para ajudar os fazendeiros a alimentar o mundo de forma segura, sustentável e eco-amigável. Fazendeiros precisam do suporte de investidores, cientistas, governos e do público.”

 

(Tradução livre de AgFunder)

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