Duelo nos céus: drones ganham espaço na pulverização de lavouras

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Por Eurico Martins

Cada vez mais comuns nas grandes cidades, principalmente em eventos esportivos, serviços de fotografias e filmagens aéreas, entre outros, os Veículos Aéreos Não-Tripulados (Vants), mais conhecidos como drones, vêm conquistando espaço também no agronegócio brasileiro.

O uso se iniciou na demarcação da área de plantio, acompanhamento da safra e das pastagens, monitoramento de desmatamentos, localização de nascentes, contagem da boiada e localização de animais perdidos. Agora, os equipamentos começam a ser testados e usados, de forma ainda tímida, na pulverização de lavouras, principalmente de cana-de-açúcar, complementando o trabalho dos aviões agrícolas, que despejam pesticidas nas plantações.

Segundo especialistas e fabricantes do setor, entre as vantagens do uso dos drones na pulverização de lavouras destacam-se a possibilidade de aplicar o produto em regiões de risco – como aquelas próximas à rede elétrica e árvores – e de difícil acesso, como encostas, montanhas e áreas onde não é possível a entrada de homens, máquinas e o sobrevoo do avião, além do fato de que o aparelho direciona os defensivos para baixo, reduzindo a dispersão do produto e melhorando a eficiência da aplicação.

Demonstrações
Uma das empresas de tecnologia agrícola que já oferece o serviço de pulverização com Vants é a Dronecenter, sediada em Ribeirão Preto (SP). Criada em 2013, a companhia iniciou os testes com os equipamentos em 2015 e, após diversas experimentações em campo, começou a disponibilizar o aparelho para o mercado.

“Atualmente, estamos fazendo demonstrações para plantadores de cana-de-açúcar, mas já temos solicitações de várias culturas como banana, capim, laranja e outros”, revela o diretor comercial da empresa, Eonil Medrado Alquemim. “Oferecemos aos nossos clientes a possibilidade de aquisição e treinamento técnico operacional, além da proposta de locação mensal ou anual do equipamento, com profissional capacitado para operação em campo”, completa.

Por questões estratégicas, ele não revela quem são seus clientes. Diz apenas que “são aqueles que necessitam de pulverização de pontos específicos, com economia de produto e material humano, de profissionais especializados em agricultura de precisão que buscam soluções práticas e econômicas”. Segundo Alquemim, a demanda acontece em todos os meses do ano. “Por haver muita diversidade e rodízio de culturas, a procura só tem aumentado a cada mês, influenciada pela própria necessidade do mercado”, explica.

Apesar disso, o setor ainda enfrenta alguns obstáculos. “As maiores dificuldades continuam sendo o alto custo de aquisição do equipamento e falta de informação por parte de agricultores, que desconhecem as vantagens financeiras da tecnologia, além da falta de linhas de crédito para aquisição destes aparelhos”, diz Alquemim. De acordo com o diretor comercial, “não existe um preço médio para a locação dos drones, já que o custo irá depender do tamanho da área a ser trabalhada, da localização da propriedade e do tempo de aluguel”.

Já para comercialização, o preço médio do pulverizador vendido pela empresa, o modelo AGRAS MG-1, movido à bateria e importado da China, com capacidade de cobrir de três a quatro hectares por hora, é de R$ 150 mil.

Movimentação na indústria
No setor industrial a movimentação também é grande. Uma das empresas que aposta alto na nova tecnologia é a SkyDrones, sediada em Porto Alegre (RS). Recentemente lançou o multirotor Pelicano, também movido à bateria, já em fase de testes por alguns produtores rurais ligados a grandes players do mercado.

Segundo a empresa, o aparelho pode carregar até sete litros de pesticida, suficientes para pulverizar uma área de um hectare em um voo de vinte minutos. “O voo é totalmente automático, sem a necessidade de pilotagem. O piloto apenas acompanha a realização da missão e os parâmetros do voo.” explica, o CEO da companhia, Ulf Bogdawa.

Ainda segundo a SkyDrones, o voo é feito entre um e três metros acima da cultura, evitando assim contaminações de plantações e de áreas vizinhas, gerando economia de até 60% no volume de defensivos aplicados. O modelo de comercialização adotado pela SkyDrones prevê a venda de um pacote que contempla o equipamento – que deve custar entre R$ 100 mil e R$ 200 mil, dependendo das diversas opções de customização possíveis – e o treinamento de pessoal.

Helicóptero
Outra fabricante nacional de Vants que está de olho no potencial da tecnologia é a XMobots, sediada em São Carlos (SP), que está em fase de pré-lançamento do helicóptero não tripulado Daxi 10A, desenvolvido para realizar a pulverização de lavouras em manchas previamente definidas.

O CEO da empresa, Giovani Amianti, cita três grandes benefícios no uso do aparelho: a possibilidade de realizar a aplicação em áreas de risco e de difícil acesso, a ausência de contato humano com agrotóxicos e o fato de que, ao contrário de bombas costais, tratores de pulverização e aviões, os helicópteros geram um fluxo de ar que direciona os defensivos para baixo, reduzindo a dispersão do produto e melhorando a eficiência da deposição do agrotóxico. “Culturas de alto valor agregado, como café e frutas, muitas vezes, estão localizadas em áreas de encostas, onde não é possível utilizar tratores e aviões.

Por isso, a aplicação de fungicidas e pesticidas é feita manualmente, trazendo grande risco à saúde humana. Nossos helicópteros facilitam este tipo de aplicação”, explica. Além disso, ele lembra que “o Daxi 10 é movido à gasolina comum, tornando a operação mais simples. “Quando acabar o combustível é só trazer de volta e abastecer em campo mesmo”, acrescenta a diretora Comercial da XMobots, Thatiana Miloso. O Daxi 10A pesa 25 quilos e pode levar dez litros de defensivo por voo. Seu preço estimado de venda é de R$ 250 mil.

Drones x Avião
Ao contrário do ocorrido nos Estados Unidos, onde o uso de drones foi alvo de muita polêmica, no Brasil as relações entre os setores de aviação e de aeronaves remotamente tripuladas são de cooperação e aproximação, inclusive no que diz respeito ao agronegócio e a pulverização de lavouras. “Lá, entre agosto de 2015 e janeiro de 2016, a Federal Aviation Administration (FAA), equivalente à Anac, registrou 190 casos de quase colisão entre drones e aviões em geral. Mas a grande maioria de aparelhos não operados profissionalmente era destinada ao lazer” explica o diretor-executivo do Sindicato Nacional das Empresas de Aviação Agrícola, (Sindag), Gabriel Colle.

Para comprovar sua tese, Colle lembra que em junho do ano passado duas empresas de aeronaves não tripuladas – a Sky Drones e a Avionis – participaram pela primeira vez, como expositoras, do Congresso Nacional de Aviação Agrícola (Congresso Sindag), realizado em Botucatu (SP).

“As próprias empresas de aeronaves não tripuladas estão procurando o setor aeroagrícola, tanto para vislumbrar oportunidades como para discutir em conjunto a normatização do setor. E o quadro deve se repetir no próximo congresso, marcado para agosto deste ano em Canela (RS). Essa proximidade para se criar um ambiente seguro para ambos é estratégica para o sindicato aeroagrícola. Baseado em indicativos de outros países, acredito que a expansão do setor deve se acelerar bastante nos próximos anos”, completa o diretor do Sindag.

Colle reforça que a entidade não é contra o uso dos drones no monitoramento das lavouras. E diz acreditar que os veículos remotamente tripulados venham a se tornar uma ferramenta tecnológica a mais na aviação agrícola. Em complemento às operações feitas por aviões ou helicópteros, por exemplo, em áreas menores, de relevo mais acidentado ou em “arremates” de recortes de áreas menores.

“Nesse sentido, os próprios operadores aeroagrícolas poderão ter drones para complementar a sua frota para esses casos. Por isso, acreditamos que a ferramenta tenha muito mais um potencial de apoio do que de ameaça ao setor aeroagrícola”, reitera o presidente do Sindag.

Como exemplo, ele cita o caso da norte-americana Air Tractor, líder mundial na fabricação de aviões agrícolas que adquiriu em maio do ano passado uma startup de drones. A estratégia anunciada pela empresa foi apostar em aparelhos complementares ao trabalho das aeronaves e gerar, a partir dos drones, tecnologias para serem incorporadas às aeronaves convencionais.

Mesmo assim, ele ressalta o protagonismo dos aviões nos serviços de pulverização. “Em primeiro lugar devido à capacidade de aplicação, velocidade e o volume de tarefas que a aviação agrícola pode realizar. O avião tem a vantagem de conseguir cobrir grandes áreas em pouco tempo, transportando volumes que vão de 600 a 3,1 mil litros, no caso das pulverizações”, justifica.

“Os drones estão muito longe dessa capacidade de carga. A velocidade no campo é fundamental para se conseguir realizar as operações a tempo de evitar a disseminação de pragas e mesmo antes que as condições meteorológicas se alterem, o que garante o controle da deriva”, completa.

Ele também lembra o importante papel desempenhado pelo piloto. “O olhar do piloto, de dentro da aeronave, sentindo as condições do voo, ainda é essencial para um melhor controle da segurança operacional e ambiental das missões”, conclui.

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2 Comentários

    1. Por Dentro do Agro Diz

      Obrigado Medrado! Continue acompanhando nosso conteúdo exclusivo aqui no Blog!

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