Mirtilo: fruta com bom potencial econômico e produtivo

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O mirtileiro é um arbusto nativo da América do Norte, Estados Unidos e Canadá, onde é denominado blueberry. Os principais produtores são os Estados Unidos e o Canadá, na América do Norte, a Polônia e a Alemanha, na Europa, e o Chile e a Argentina, na América do Sul. No Brasil a cultura é recente e pouco conhecida, sendo a primeira coleção introduzida pela Embrapa Clima Temperado em 1983. As principais regiões de cultivo encontram-se no Rio Grande do Sul, principalmente nos Campos de Cima da Serra (Vacaria) e região de Pelotas.

O mirtilo é uma baga de tamanho pequeno, de um a dois gramas e coloração azul-púrpura. Possui propriedades funcionais e nutracêuticas, pois é rico em compostos antioxidantes, sendo considerado a fruta da longevidade e ajuda, segundo a literatura, na prevenção de doenças, entre elas o câncer. Outros aspectos interessantes são a baixa incidência de patógenos e a elevada necessidade de mão de obra para a colheita. Essa característica, associada às diversas possibilidades de comercialização da fruta, como in natura, em forma de suco, iogurte, geleia, polpa etc, tem despertado o interesse de diversos produtores, especialmente de pequenas propriedades que desejam produzir em sistemas alternativos, como agroecológico ou orgânico.

O mirtileiro necessita de solos ácidos, com pH em água entre 4 e 5,5, arenosos ou franco-arenosos, com boa drenagem e porosidade. Apresenta sistema radicular superficial, com raízes finas e sem pelos radiculares. Em relação ao clima, o principal fator a ser levado em conta é a oferta de horas de frio abaixo de 7,2ºC na região e a exigência das cultivares. As cultivares do grupo Rabbiteye adaptam-se em regiões de pouco frio (cerca de 300 horas de frio), enquanto as do grupo Highbush em regiões mais frias (cerca de 650-800 horas de frio), que geralmente coincidem com as de maior altitude. Nas regiões mais altas, com um número elevado de horas de frio (mais de 500 horas de frio), podem ser plantadas cultivares mais exigentes. Por outro lado, em regiões baixas, com menos de 200 horas de frio, o mirtilo não apresenta boa adaptação e pode ocorrer brotação e floração deficiente causando baixa produção. É uma cultura exigente quanto à oferta de água, sendo imprescindível a utilização de sistema de irrigação, de preferência por gotejamento. O mirtilo requer até 50mm de água, semanalmente, durante o período de desenvolvimento das frutas.

As formas de propagação mais utilizadas são a estaquia herbácea ou a semi-herbácea, com a aplicação de reguladores de crescimento, em geral, o ácido indolbutírico (AIB), sendo a concentração variável com a cultivar e a época do ano. De acordo com resultados de pesquisa, vários substratos podem ser utilizados, os mais comuns são areia de granulométrica média e serragem, o primeiro, podendo atingir taxa de enraizamento, para algumas cultivares, acima de 90% quando associado com AIB. Geralmente a propagação é realizada em estufa agrícola com irrigação por nebulização intermitente, utilizando água de preferência com pH inferior a 7. De maneira geral, após 120 dias ocorre a formação do sistema radicular, momento em que as estacas são transferidas para telado para a aclimatação e formação da muda.

As principais cultivares de mirtilo disponíveis no Brasil são O’neal, Misty, Georgiagem e BlueCrisp, do grupo Highbush, e Powderblue, Woodard, Bluegem, Briteblue, Climax, Delite, Aliceblue e Bluebelle do grupo Rabbiteye (Tabela 1), sendo a recomendação de cultivar variável com as características edafoclimáticas da região em que se deseja plantar.

De modo geral, o manejo é similar às demais frutíferas, porém, com algumas práticas agrícolas diferenciadas. Exige adição de material orgânico nas áreas com baixo teor de matéria orgânica. É uma cultura exigente em fertilidade. Especial atenção deve ser dada ao nitrogênio, principalmente durante o desenvolvimento inicial das plantas. Para o controle de invasoras normalmente se utiliza o mulching na linha de plantio. Alguns estudos têm demonstrado também a eficiência do cultivo em ambiente protegido, sendo suas principais contribuições a proteção contra adversidades climáticas e a redução do uso de agroquímicos. No Brasil seu cultivo é realizado a campo, apresentando uma baixa incidência de pragas e doenças, adaptando-se a sistema de produção orgânica. Neste sentido, entre as técnicas que estão sendo testadas pela pesquisa encontra-se o cultivo em ambiente protegido, para minimizar os efeitos dos elementos do clima como, por exemplo, da chuva e do vento. Neste ambiente busca-se aproximar as condições ideais para o desenvolvimento da espécie possibilitando a expressão do máximo potencial da espécie. Em locais onde o clima é o fator limitante, permite a proteção da cultura contra geadas, granizo e maior proteção contra patógenos.

Trabalhos preliminares com mirtileiros, cultivar Powderblue, cultivados em vaso demonstram aumento de produção se comparados ao cultivo a campo. Por outro lado as cultivares Bluegem e Climax não apresentaram diferença na produção com o uso do cultivo protegido. Em ambas as cultivares citadas as características fitoquímicas dos frutos (atividade antioxidante, antocianinas, compostos fenólicos, sólidos solúveis) foram mantidas, indicando assim que o sistema de proteção pode ser vantajoso, mas depende de cada cultivar utilizada e das condições climáticas predominantes em cada ciclo produtivo. Embora alguns resultados de pesquisa apontem vantagens com a utilização do cultivo protegido, na atualidade, no Brasil, somente é realizado cultivo a campo e sem proteção.

O mercado para o mirtilo e outras frutas, de características similares, está em crescimento em todo o mundo. No Brasil não é diferente, com o aumento do poder aquisitivo das pessoas e a busca dos consumidores por alimentos que tragam benefícios à saúde, tem havido grande estímulo ao consumo. Desta forma, como a oferta ainda é pequena, o preço pago ao produtor é relativamente alto. Em 2013 o valor pago ao quilo de mirtilo, pelo consumidor, na Ceasa de Porto Alegre variou de R$ 18,00 a R$ 52,00 (Figura 1). Nota-se que o preço é alto no início da safra, cai durante a colheita e permanece baixo ainda durante aproximadamente um mês após o final da safra. O preço relativamente baixo no primeiro mês após a safra pode ser explicado pelo volume da produção que permanece armazenado em câmara fria.

Entre as espécies conhecidas como pequenas frutas, que incluem o morango, a amora-preta e a framboesa, o mirtilo é o que apresenta o maior potencial de armazenamento refrigerado. Entretanto, vários cuidados durante a colheita são necessários para que a conservação pós-colheita seja maximizada, tais como: evitar danos mecânicos aos frutos, realizar a colheita nas horas mais frescas do dia, não realizar a colheita logo após a ocorrência de chuvas fortes, colher os frutos diretamente na embalagem de comercialização e, dependendo da cultivar, a colheita poderá ser realizada em cinco ou seis vezes, uma vez que a maturação dos frutos ocorre de modo desuniforme.

Figura 1 – Distribuição da produção da cultivar Powderblue e preço médio pago pelo Ceasa de Porto Alegre na safra de 2013

Mirtilo

Principais

Cultivares

Grupo Necessidade de frio (horas de frio) Fenologia
Início de maturação Final de maturação
Misty Highbush 150 – 200 Meados de outubro Final de novembro
O’ Neal 400 – 500 Meados de outubro Final de novembro
Georgiagem 350 – 400 Meados de outubro Final de novembro
Bluebelle Rabbiteye 400 Início de dezembro Final de janeiro
Bluegem 400 Início de dezembro Final de janeiro
Briteblue 400 Início de dezembro Final de janeiro
Climax 650 Final de novembro Final de janeiro
Delite Meados de dezembro Meados de janeiro
Powderblue 300 – 400 Meados de dezembro Final de janeiro
Woodard 650 Meados de dezembro Final de janeiro

 

Fonte: Grupo Cultivar 

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