Mundo Afora: Açaí, o fruto sagrado do povo Itaki

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Reza a lenda que o Açaí começou a ser utilizado como alimento muitos anos atrás, depois que o cacique Itaki teve sérios problemas para alimentar seu povo – uma nação indígena que vivia na Floresta Amazônica. A história tem um desfecho trágico, mas foi o “fruto sagrado do povo de Itaki” – como ficou conhecido o fruto da palmeira açaizeiro, que venceu a fome e deu uma nova esperança ao povo da região.

Talvez o cacique não soubesse quantos benefícios estava proporcionando para alimentação de seu povo. Hoje, sabemos que aquela frutinha de cor roxa-escura é rica em vitaminas do complexo B e C, além de oferecer sais minerais, como o ferro, cálcio e potássio. O açaí também favorece a circulação sanguínea, já que é rico em antocianinas.

A exemplo do sábio povo Itaki, que incluiu essa fruta com tantos benefícios nutricionais em sua dieta, o povo brasileiro também soube aproveitar e começou a produzir de tudo com o açaí: sucos, creme, licor, geleia, mingau, óleos, sorvetes, doces e até pimenta.

Renda e qualidade de vida

Em muitos lugares do país, o Açaí não perdeu seu status de fruto sagrado. Aliás, ele continua sendo uma das principais fontes de alimentação para populações ribeirinhas. Na região amazônica, o suco feito com a polpa do fruto ganha o nome de “vinho de açaí” e faz parte da alimentação local. Na Amazônia, usa-se o açaí também para fazer pirão com farinha.

Na região de Marajó, uma ilha localizada no Pará, por exemplo, a bebida preparada à base de açaí é um item importante na dieta alimentar de seus moradores. Para fabricar a bebida, os frutos da palmeira são colhidos maduros e colocados em água morna para amolecer, depois, são macerados com mais água.

O açaí também garante renda para comunidades tradicionais e muitos agricultores familiares. Os frutos são vendidos, compondo grande parte da renda monetária das famílias da região.

Da terra do açaí

O açaí que conhecemos no sudeste é bem diferente do açaí consumido ao norte do Brasil. Por aqui, ele já chega envolvido em algumas misturas, como água, açúcar ou xarope de guaraná. Para completar o prato que na maioria das vezes é servido como sobremesa, mistura-se cereais, frutas, e outros tipos de cremes.

De acordo com Pedro Matos (27), um amapaense que hoje vive em Belo Horizonte, isso pode ser até ofensivo aos olhos de um nortista tradicional, que cresceu comendo açaí junto à sua refeição principal. “As combinações mais famosas do açaí são com camarão e peixe. De um lado, a sua tigela de açaí, com açúcar e farinha e ao lado um prato de camarão. Lá se come açaí com peixe, frango, carne, churrasco, charque e por aí vai”, explica.

No Amapá come-se açaí bem fresco e na maioria das vezes o creme é feito na hora com a fruta do açaí. “Ele é preparado em lugares chamados Batedeiras e o mais curioso é que essas batedeiras são sinalizadas com bandeiras vermelhas na frente, sempre bem visíveis, ou nas esquinas próximas, para dizer que ali tem açaí. Quando a fruta acaba, retira-se as bandeiras”, conta Matos.

O açaí consumido no Norte é integral, conforme esclarece a paraense Kamila Nogueira (21). “Compramos açaí moído na hora, ou seja, a gente come ele como um creme, é um caldo bem grosso e com um gosto terroso!”, completa. Ela conta ainda que as combinações com açaí no Pará são muito diferentes das que vemos em outras regiões do país. “A gente toma com farinha puba (uma farinha de mandioca bem grossa), ou com farinha de tapioca (uma bolinha que parece isopor). Os paraenses mais tradicionais, chegam a tomar acompanhado do almoço. É uma colher no prato de comida e outra no açaí!”, completa.

Se perguntar para a jovem Amanda Furukawa (16), que nasceu em Minas Gerais, mas viveu grande parte da infância com a família no Pará, qual a principal diferença entre o açaí do Pará e o de Minas, ela vai responder: “a aparência é totalmente diferente. Nosso açaí é bem forte. Parece café quando não é coado, sabe?. Também não tem essa história de comer com banana ou leite condensado, a gente compra por litro nas feiras ou na orla e toma puro”, esclarece.

Tecnologia no cultivo

O açaí é cultivado principalmente em estados como Pará e Amazonas, que são os maiores produtores da fruta no país e responsáveis por mais de 85% da produção mundial. Ele também é produzido no Amapá, Maranhão e Tocantins. O fruto apresenta crescimento de demanda no mercado nacional e internacional, sendo considerado um importante produto de desenvolvimento da economia Amazônica.

Fonte também para a extração de palmito, o açaizeiro pode atingir até 30 metros de altura. A palmeira se desenvolve mais facilmente em locais próximos aos ribeirões, rios e várzea. Seu fruto conquista cada vez mais mercado no mundo inteiro – demanda que fez com que alguns produtores começassem a plantar em terra firme.

Para manter um açaizal produtivo e saudável e necessário preservar o equilíbrio ambiental da região de cultivo. Por isso, o manejo é uma tecnologia recomendada pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). A instituição pesquisa alternativas para aumentar a produção brasileira de açaí e ao mesmo tempo manter a diversidade florestal das regiões, melhorando as condições de produção do fruto.

Como a palmeira é nativa de área de várzea, onde passa a maior parte do tempo em solos inundados, o cultivo de açaí em terra firme requer investimento tecnológico em irrigação. Para maximizar a produção, é necessário que o produtor invista em Agricultura de Precisão (AP) e conheça o perfil hídrico das diferentes espécies – dessa forma conseguirá adequar racionalmente o consumo de água nas plantações.

Em área de várzea, o Brasil produz hoje cerca de seis toneladas por hectare ao ano, com o manejo. E em área de terra firme com adubação e irrigação, o produtor consegue fazer de 15 a 17 toneladas de frutos por hectare ao ano.

Curiosidades: O que mais se faz com a árvore de açaí?

Caroço: pode ser usado como adubo;
Estirpe: pode ser usado em construções;
Copa: as folhas podem virar chapéus, esteiras, cestos, vassouras de palha e telhado para casas;
Base da copa: palmito mais procurado pela indústria alimentícia;
Bainhas das folhas: os resíduos servem de ração para bovinos e suínos e também como adubo orgânico;
Óleo: a substância possui diversas propriedades químicas benéficas ao corpo humano. Com alta concentração de antioxidantes (muitas vezes mais que a uva), é rica em ácidos graxos essenciais é pode ser usada tanto para fins culinários quanto para uso cosmético.Açaí: O Fruto Sagrado do Povo Itaki

  • Cada 100 gramas de açaí possui em média 160 calorias e alto teor de gordura. Vale lembrar que ele é composto em grande parte por gorduras monoinsaturadas (60%) e poliinsaturadas (13%), aquelas que já conhecemos também do abacate. Elas auxiliam na redução do colesterol ruim (LDL), melhoram o HDL e contribuem para a prevenção de doenças cardiovasculares, obesidade, fraqueza física e problemas de memória.
  • O fruto é considerado uma iguaria exótica e já conquistou consumidores exigentes no Brasil e em outras cidades ao redor do mundo, como Los Angeles e Nova Iorque (EUA) e Paris (França). Ele também é encontrado em outros países como Venezuela, Colômbia, Equador e Guianas.
  • No açaí na tigela, como chamamos aqui no sudeste, a polpa congelada é batida com xarope de guaraná, por isso fica com textura semelhante ao sorvete. São necessários cerca de 2,5 quilos de frutos maduros para a produção de um litro de suco de açaí.

Depoimentos

“Minha combinação preferida é de açaí com camarão e só de contar já deu água na boca.” – Pedro Matos
“Eu AMO açaí com charque, pra mim é o mais gostoso!” – Kamila Nogueira
“Gosto mesmo é com farinha de tapioca!” – Amanda Furukawa

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