Strider Entrevista Blayne Reed

Blayne Reed, agente de extensão de manejo integrado de pragas, é formado em entomologia e agronomia pela Universidade Estadual de Tarleton (Tarleton State University), localizada no Texas, Estados Unidos. Reed é especializado em entomologia aplicada ao campo e colheita nas culturas de algodão, sorgo, milho, trigo, alfafa e girassol, nas quais desenvolveu várias pesquisas de campo com aplicações entomológicas, estudos de resistência e de limiar econômico. Reed possui ainda especialização em agronomia, controle de pragas e ervas daninhas, e irrigação.

Tamanha experiência e dedicação ao manejo integrado de pragas deu a Reed o prêmio de excelência como consultor dos produtores de milho de três Condados do Texas – Hale, Swisher and Floyd – na reunião anual da Texas A&M AgriLife, que aconteceu em julho do ano passado. A premiação se deve ao notável trabalho de Reed no auxílio aos produtores em relação às decisões das áreas pré-plantadas, da seleção de híbridos, do gerenciamento de insetos e da fertilidade das colheitas.

Introdução

O mercado tecnológico de agricultura de precisão é resistente ao cenário de instabilidade econômica brasileira e vem apresentando crescente demanda no país. As empresas que oferecem softwares de gestão para agricultura estão confiantes em 2017 e acreditam que a busca por tecnologias rurais deve crescer ainda mais a partir da recuperação econômica esperada para o ano, principalmente aquelas voltadas para o controle biológico de pragas nas lavouras.

Dados da Associação Brasileira das Empresas de Controle biológico (ABC Bio) mostram que o mercado do manejo biológico deve ter um incremento de pelo menos 15% ao ano no Brasil nos próximos anos, acima da média mundial.

Os produtores devem estar atentos ao uso dos recursos tecnológicos agrícolas a fim de aprimorar a gestão no campo e garantir o sucesso operacional das safras. Blayne Reed realiza eventos educacionais no Texas para conscientizar produtores sobre a gestão dos insetos nas operações, a gestão da água, dentre outras questões estratégicas, que podem afetar áreas de plantio.

Os resultados das ações mostram que os programas desenvolvidos por Reed ajudaram a aumentar os conhecimentos dos produtores em 36% com programas presenciais e 79% dos produtores que participaram dos programas disseram que adotam as práticas ensinadas em suas culturas.

Blayne conversou com a Revista Strider sobre a importância do manejo integrado de pragas e do uso de tecnologias de precisão nas culturas norte-americanas.

Aqui no Brasil temos uma grande dificuldade em encontrar pessoas qualificadas para trabalhar na agricultura. Você acha que essa situação é a mesma para todos os agricultores nos EUA? Você pode nos dizer um pouco sobre sua experiência de formação e encontrar mão de obra qualificada?

Bem, a resposta curta é sim, é um pesadelo achar pessoas bem qualificadas e, na maioria das vezes, nós precisamos treiná-las e desenvolvê-las nós mesmos. Podemos ter um entendimento mais profundo sobre isso quando olhamos para as diferenças entre as infraestruturas de uma fazenda brasileira e americana.

Eu estou apenas começando a entender como o produtor brasileiro funciona no seu dia a dia e, para mim, parece que os médios produtores brasileiros têm uma estrutura mais corporativa, enquanto 99.8% das fazendas americanas ainda são tradicionais e familiares.

Sendo assim, os pequenos agricultores familiares aqui nos Estados Unidos não contratam técnicos de campo. A maioria contrata consultores de culturas independentes. Eu estimo que, dependendo da localização, 40-80% dos produtores contratam estes entomologistas e agrônomos altamente qualificados e treinados.

A maioria destes consultores independentes têm de 6 a 30 clientes produtores, e fazendas de 20.000 a 80.000 acres sob a sua consultoria. Nesses casos, cabe ao consultor independente achar essas pessoas qualificadas para atender às necessidades de entomologia e agronomia de seus clientes.

Já os pequenos produtores dos Estados Unidos optam por não contratar um consultor, e o produtor mesmo supre essas demandas.

Em 2015, o USDA, Instituto Nacional de Alimentação e Agricultura e Purdue, estimou que nos próximos 5 anos, será esperada a abertura de 60.000 vagas de trabalho agrícolas altamente qualificados, mas há apenas 35.000 pessoas graduadas e teriam os requisitos necessários para preenchê-las.

Localmente, entre Liberal, Kansas e Lamesa, Texas, há apenas 70 consultores independentes, e já não conseguem assumir novos clientes por falta de mão de obra. Nós, na extensão e na indústria, temos posições de gestão de M.I.P. abertas há muitos anos, que não conseguem ser preenchidas pela falta de pessoas qualificadas.

Em meus 25 anos de experiência no de controle de pragas como verificador de campo trabalhando verões através da faculdade, estudante de pós-graduação conduzindo pesquisa de campo, consultor de colheita independente e como Agente de Extensão – M.I.P, eu já treinei centenas de técnicos e produtores.

E, ao longo do meu emprego, apenas 15% tiveram sucesso, e cerca de 75% destes quinze se apaixonaram por esta indústria maravilhosa, mudaram seus cursos universitários.

Eu certamente tento e continuarei tentando orientar esses jovens o melhor que posso, e sugiro que todos nós façamos o mesmo. Vamos olhar mais atentos para essas oportunidades de fazer diferença no mundo!

Outro ponto interessante que você pode dizer aos nossos leitores é um pouco sobre o processo de erradicação do Bicudo do algodão, você sabe que é um grande problema aqui no Brasil, quais foram os passos para os EUA fazerem isso? Qual é a grande e nova ameaça à agricultura nos EUA, na sua opinião?

Ahh … o malvado bicudo! Tivemos muitas batalhas legais sobre o estabelecimento de processo de erradicação aqui e eu não esperaria que a situação fosse diferente para nossos amigos no Brasil.

Embora os direitos de propriedade devam ser protegidos e o meio ambiente deva ser respeitado, a criação de um programa de erradicação do bicudo foi única coisa que nos permitiu acabar com esta praga nos EUA, exceto na extremidade sul do Texas.

No Texas High Plain descobrimos uma fraqueza em seu ciclo de vida, no qual nos permitiu atacá-lo. Devido aos nossos invernos frios, não tinha uma fonte de comida do meio de outono até o início do verão, isso significava que a praga tinha que ajustar seu ciclo de vida para viver aqui, e logo se adaptou para entrar em um estado de diapausa.

Esta necessidade de engordar no outono nos deu oportunidade para atacar a praga. Isoladamente, nunca conseguimos o controle, mas quando o programa foi aprovado pelo voto do produtor, todos os produtores de algodão no Texas começaram a pagar uma taxa para o programa unificado de erradicação do Bicudo.

O programa foi economicamente capaz de realizar a sua erradicação na maioria das cidades em um intervalo entre 5 a 7 anos. No Brasil, eu não acho que essa fraqueza no ciclo de vida do Bicudo existe, mas, ainda assim, acredito que uma plantação melhor unificada, planejada e com uma data de término de colheita possa limitar o acesso do Bicudo no algodão.

A ideia é que fora dessa janela de cultivo de algodão; não se pode cultivar algodão e todas as plantas voluntárias deveriam ser destruídas. Isso faz com que durante vários meses a única fonte de alimento do Bicudo seja apenas o algodão “selvagem”.

Essas plantas de algodão selvagem também devem ser tratadas de alguma forma, ou tratando-as ou destruindo-as. Ambos as opções teriam de ser cuidadosamente consideradas e, com certeza, é um situação muito mais difícil do que aqui no High Plains de Texas.

Como são os incentivos do governo para o setor agrícola? Como estão as perspectivas para este novo ano?

Os incentivos do governo para o setor agrícola não são bons, e a perspectiva parece sombria. Com os preços das commodities bem abaixo do nosso custo de produção, os produtores estão empregando métodos para apenas sobreviver.

Além disso, enfrentamos muitos novos problemas com pragas e resistência a herbicidas em nossas espécies de ervas daninhas. Ou seja, o entusiasmo do setor de agricultura é baixo, mas colocamos nossas botas, apertamos o cinto, e vamos trabalhar..

No que diz respeito às culturas, provavelmente cresceremos mais no algodão, não devido ao preço, mas devido à sua melhor tolerância à seca comparado com milho e à soja.

Você acha que o tamanho das fazendas influencia a quantidade ou velocidade de adoção da tecnologia? Quero dizer, se a fazenda é grande, ela adota mais tecnologia?

Eu não sei, eu acho que esses gastos  têm um impacto menor quando a área produtiva é maior, ou sua cultura é de maior valor.Além disso, uma fazenda que possui uma gestão empresarial mais robusta, tem mais facilidade em adotar tecnologias mais recente.

Por outro lado, a necessidade de inovação pode acontecer em uma fazenda familiar menor, onde existe a necessidade de resolver problemas pontuais.

Então, eu acho que o grande problema é, a nova tecnologia é boa? Qual é o seu valor para o grande produtor e/ou o pequeno? A resposta real vem ano após ano através do uso prático, até ser provado como um investimento confiável.

Quais as vantagens da gestão agrícola através de um software para o produtor?  

Dentre os benefícios estão a confiabilidade dos dados gerados pelas plataformas tecnológicas, a verificação de que o planejado e o realizado se convergem, a possibilidade de o produtor, que não está 100% do tempo na fazenda, ter um visão geral, em tempo real, de tudo o que acontece via aplicativos, sem necessariamente precisar estar fisicamente presente, e ainda melhor suporte para a tomada de decisão final, ou seja, dados e informações que constituem uma base mais confiável para decisões mais assertivas.

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