Tecnologia para vencer os desafios da irrigação

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A crise hídrica é um assunto que não sai da cabeça dos brasileiros. Algumas cidades, inclusive capitais, já sofrem com racionamento. Em tantas outras, a ameaça da falta de água é constante e economizar virou obrigação na maioria dos municípios. Mas, e no campo? Na produção de alimentos, o líquido é imprescindível para fazer as lavouras crescerem. Ou seja, para termos comida nas mesas, precisamos jogar água – e muita – nas plantações.

Os números impressionam. O último levantamento do Sistema Nacional de Informações sobre o Saneamento, do Ministério das Cidades, mostrou que o Brasil tem um consumo médio anual de 10,4 trilhões de litros. Desse total, cerca de sete trilhões são destinados à agricultura. E o alarme soa quando vemos que o setor acaba desperdiçando uma média de três trilhões de litros por ano.

Segundo a ONU, aproximadamente 70% de toda a água doce disponível no mundo é utilizada para a irrigação. No Brasil, este índice chega a 72%. De acordo com a FAO, órgão das Nações Unidas para agricultura e alimentação, cerca de 60% da água utilizada em projetos de irrigação é desperdiçada.

Mas como reduzir essa perda sem comprometer o setor que movimenta quase R$ 300 bilhões por ano no Brasil? Uma das principais maneiras é a automatização dos sistemas de irrigação, usando a água de forma mais racional e evitando o desperdício. “O sistema automatizado funciona com sensores que indicam o momento certo de ligar a irrigação, baseado na umidade do solo.

A automatização nos dá condições de saber a quantidade de água e o momento em que devemos aplicar essa quantidade de água”, afirma o doutor em engenharia agrícola Flávio Pimenta, especializado em sistemas de irrigação. “Um manejo correto pode garantir até 20% de economia no uso da água e da energia, diminuindo o desperdício e os custos da safra”, garante Flávio.

Tecnologia contra o desperdício

Desenvolver novas tecnologias de irrigação virou meta de muitas empresas e pesquisadores. Fundada em Israel e presente em mais de 40 países, a Netafim é uma das que buscam conquistar esse mercado. O engenheiro agrônomo Carlos Sanches, que há 13 anos trabalha na empresa, garante: é possível usar a tecnologia para ser mais sustentável. “Desenvolvemos um software que coleta informações como umidade do solo. A cada 15 minutos, eu recebo uma leitura do campo.

Monitoro em tempo real e isso me permite tomar a melhor decisão. O produtor só vai irrigar se realmente precisar. Se eu tenho um determinado nível de umidade do solo, que já está dando condição da planta se desenvolver da forma plena, eu não preciso ligar o sistema e gastar água.” Ele garante que as decisões se tornam muito mais técnicas e, assim, o resultado fica mais claro. “Não é mais o “botinômetro”, aquele sistema que você vai lá, põe a botina na terra e, se tiver saindo poeira, é preciso irrigar. Não tem isso mais. Na irrigação moderna, você só vai irrigar se for necessário”.

Carlos também aponta outro efeito causado pela automatização: a racionalização do uso de funcionários. “A gente vê uma necessidade muito grande de reduzir a mão de obra. Com a automatização, os operadores, ao invés de ficar ligando e desligando o sistema, podem fazer outras atividades na propriedade, porque funciona sozinho”. Tudo isso acaba fazendo com que o custo da implementação de um sistema automatizado compense no final das contas, pois acaba se pagando.

“O custo não é alto e compensa sim. O preço médio para implantação de uma irrigação automatizada fica em torno de R$ 7.000 a R$ 10.000 por hectare. Se contar o que representa a economia de 20% em água e energia, viabiliza a colocação”, afirma o engenheiro Flávio Pimenta. Segundo cálculos de mercado, em uma plantação de café, por exemplo, o sistema se paga na primeira colheita.

Irrigar e nutrir

Os sistemas mais modernos de irrigação podem atingir outros objetivos, além da economia. Alguns projetos utilizam a água que vai ser jogada nas plantas para alimentá-las. “Por que não colocar também os nutrientes que a planta precisa pra se desenvolver? É isso que a gente faz. Mistura na água e cada vez que faço irrigação coloco esses nutrientes pra planta se desenvolver”, destaca Carlos Sanches. Esses métodos trazem ainda mais vantagens para o produtor rural, que vê a possibilidade de aumentar sua produção, desenvolvendo lavouras mais fortes e resistentes a pragas e doenças.

Métodos mais eficientes

As primeiras técnicas de irrigação surgiram no Egito, há cerca de sete mil anos. Os agricultores sempre souberam que, para melhorar a colheita, era necessário “fazer chover”, trazendo água de outros lugares para as lavouras. Com o passar do tempo, os métodos tornaram-se fundamentais para a sobrevivência da agricultura e foram se aperfeiçoando. Cada um deles mostrou ser mais ou menos eficiente, com vantagens e desvantagens.

Entre os mais utilizados no Brasil está o pivô central, que tem uma eficiência média de 70 a 75%. Segundo a Agência Nacional de Águas, entre 2006 e 2014 houve crescimento de 43,3% na área irrigada pelo sistema que, hoje, é o método que detém a maior proporção de novas outorgas emitidas pela ANA: 30,1%.

Outro sistema com alto índice de eficiência é o gotejamento, que tem 5% de desperdício. É o método usado por Carlos Sanches para automatização de irrigação. “Para irrigar um pé de café, que precisa de seis litros de água por dia, eu preciso colocar apenas 6,2 litros diários. Se a gente compara com os métodos tradicionais, é possível produzir muito mais com um consumo de água bastante reduzido”, afirma o engenheiro.

Ele dá um exemplo claro de como a escolha do método pode contribuir para a economia de água. “No Rio Grande do Sul, a cultura do arroz é irrigada 100% por inundação, um método que tem de 40 a 45% de eficiência. Passamos a irrigar por gotejamento, que é eficiente em 95%. Aí fizemos uma conta simples: o RS tem um milhão e cem mil hectares de arroz inundado.

Se todos esses produtores migrassem pra irrigação por gotejamento, a economia de água seria suficiente para abastecer quase 20 vezes Porto Alegre, por um ano”. E completa: “a gente fica feliz, cada vez mais, de ver que os produtores estão conscientes de que a água é um bem finito. Então por que não usar esse bem da melhor forma possível? A gente viu uma conscientização muito forte nos últimos anos”.

Consumo de água anual no Brasil: 10,4 trilhões de litros
72% desse total é usado para irrigação
60% da água usada em irrigação é desperdiçada
Fontes: ONU, ANA

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